quinta-feira, 21 de março de 2013

Por uma Pedagogia Ambiental


devorando o Planeta

Marcus Eduardo de Oliveira

Enquanto a aquisição de bens de consumo suntuosos continuar sendo toscamente confundida como símbolo de prosperidade, sucesso e possibilidade de ascensão social, determinando padrões distorcidos de conduta, certamente a humanidade retrocederá cada vez mais em termos de valores e princípios.
Se não bastasse essa distorção de valores que prioriza o “ter”, a sociedade de consumo deve sempre ser vista também como inimiga número um do meio ambiente. Se de fato desejamos habitar um mundo melhor, como é de senso comum, é de fundamental importância que todos desenvolvam visões diferenciadas sobre a natureza e o comportamento concernente à prática de consumo, não perdendo de vista que a poluição dos rios, do ar, o desgaste do solo, a perda de florestas e o desaparecimento de espécies animais e vegetais estão intimamente relacionados ao considerável aumento de energia, água e serviços ecossistêmicos usados largamente para manter elevadas taxas de produção atendendo assim essa sociedade de consumo.
Nossas relações sociais jamais podem se pautar e muito menos se fortalecer a partir das quantidades que consumimos; urge, definitivamente, romper-se com esses hábitos perdulários e consumistas. Qualidade de vida não pode estar associada à conquista material. Curvar-se a isso é restringir, pelas vias mais rasteiras possíveis, a própria vida a uma questão mercadológica.
Romper com essa ideia é imprescindível para a construção de um mundo ecologicamente mais equilibrado e saudável, respeitando a natureza e sabendo que mais produção é sinônimo de mais poluição, assim como menos consumo é sinônimo de mais vida.
Somente alcançaremos essa ruptura quando todos estiverem imbuídos de um mesmo ideal, criando consciência necessária para entender que o planeta não absorverá a parcela global da população mundial no ambiente de consumo em decorrência da finitude dos recursos naturais. Logo, não adianta incorporar o mercado de consumo; lá não há espaços para todos. Definitivamente, esse mercado precisa ser desinchado.
Para isso, um passo importante rumo a esse ambiente mais saudável é levar informações a todos e, principalmente, àqueles que serão encarregados de usufruírem o mundo num futuro próximo; ou seja, aqueles que literalmente “farão” esse mundo próximo. Nesse sentido, educar ambientalmente as crianças de hoje desde os anos iniciais de estudos é um bom caminho a ser percorrido. Nossos jovens alunos precisam aprender e praticar apedagogia ambiental.
Essa pedagogia ambiental deve ser ensinada levando-se em conta que não é necessária maior produção para atender as reclamações vindas do mercado de consumo. O que já tem por aí em termos de mercadorias é suficiente para atender a todos. A necessidade se restringe em dirimir as desigualdades de consumo em que 20% da população que habita os países do hemisfério norte “engolem” 80% de tudo o que é produzido, gerando mais de 80% da poluição e degradação dos ecossistemas, ao passo que “sobra” apenas 20% da produção material para 80% da população dos países localizados no hemisfério sul.
Caberá a essa pedagogia ambiental, em forma de disciplina inserida na grade curricular, realçar o fato de que a excessiva exploração dos recursos naturais para “sustentar” a insustentável sociedade consumista é geradora mor de desigualdades e potencialmente criadora da insustentabilidade ambiental e social ora presenciada.
Essa pedagogia ambiental deve ser ensinada a partir do desenvolvimento de culturas próprias que sejam capazes de enaltecer o consumo verde, fazendo com que cada consumidor busque mercadorias que não agridam o meio ambiente, quer seja no ato da produção, durante a distribuição e, principalmente, após o uso, ao descartar-se um produto despejando-o no lixo, uma vez que é sabido que mais de 52% de nosso lixo não recebe tratamento adequado e, por isso, é altamente nocivo ao meio ambiente.
Essa pedagogia ambiental deve desenvolver canais que permitam maior politização do consumo, incluindo noções básicas e essenciais para evitar o desperdício de alimentos, água e energia elétrica bem como enfatizar práticas que favoreçam as técnicas e os processos de reciclagem. Carecemos muito desse tipo de cultura.
Essa pedagogia ambiental necessariamente deve servir para conscientizar nossos alunos sobre a importância em se preservar nossa rica biodiversidade uma vez que possuímos a maior extensão de floresta tropical do planeta (quase 65% do território), abrigando sete importantes biomas (Caatinga; Campos Sulinos, também conhecidos como “pampas”; Zona Costeira e Marinha; Amazônia brasileira, que contém cerca de 1/5 da água doce do planeta; Pantanal; Cerrado e Mata Atlântica) incorporando mais de 50 mil espécies de plantas (mais de 20% do total mundial), mais de 500 espécies de mamíferos, quase 1.700 aves e mais de 2.500 espécies de peixes.
Assim como uma andorinha só não faz verão, a conscientização coletiva, a partir dos ensinamentos emergidos da pedagogia ambiental poderá fazer toda a diferença num breve espaço de tempo. Assim esperamos!
Marcus Eduardo de OliveiraArticulista do Portal EcoDebate, é Professor de Economia, Ambientalista e especialista em Política Internacional (USP) – prof.marcuseduardo@bol.com.br
EcoDebate, 26/02/2013.

2 comentários:

  1. Mas não é só isso professor Marcos : http://www.unep.org/portuguese/wed/quickfacts/ - Além disso, a EA já está jurídicamente inserida na grade escolar desde A Conferência de Triblisi - em 1972, depois na Carta de Belbrado, ECO 92 e outras tantas pelo mundo; - mas, cadê o treinamento de docentes? Cadê as campanhas de inserção e conscientização? Temos mais de TRINTA órgãos ambientais - a maior parte federais e ONGS, além das secretarias estaduais e municipais de meio ambiente.Aziz Ab' Saber, geógrafo recentemente falecido já proclamava o discurso da inserção de EA desde 1993! E desde então o que mudou. A indûstria é soberana aos discursos ambientais, o giro de capital supera os interesses ambientais etc... (LOURIVAL F. REIS JR - br.linkedin.com/in/lourival1/)

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  2. Boa tarde, Sr. Lourival Reis.
    Muito obrigado pelo seu comentário. Reforçamos o seu ponto de vista em relação a desestruturação da EA e por isso em parcerias com pessoas físicas e jurídicas, professores e outros trabalhadores da educação e comunidades escolares, realizamos desde 2012 o Projeto Escolas Sustentáveis. Segue uma breve descrição de nossas atividades:
    Escolas Sustentáveis é um projeto de capacitação dos educadores das escolas públicas (estaduais, municipais, comunitárias) para o ensino contextualizado da educação ambiental e o desenvolvimento de projetos de sustentabilidade nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio e nas comunidades escolares.
    Através de enfoques multi, inter e transdisciplinares, são realizadas palestras, debates e seminários com a participação dos professores, agentes educacionais, coordenadores, pedagogos e demais serviços de apoio ao ensino. Os projetos surgidos a partir destas ações são acompanhados e assessorados até a sua implantação ou durante um ano.
    As atividades foram iniciadas no segundo semestre de 2012, com várias palestras realizadas, assessorias em projetos e orientações para a IV Conferência Nacional Infanto Juvenil pelo Meio Ambiente.
    Escolas Sustentáveis é realizado através de sistema comunitário e solidário de financiamento e de ações voluntárias dos seus coordenadores e colaboradores.
    A coordenação administrativa, executiva e financeira, os recursos humanos e infraestrutura do projeto Escolas Sustentáveis é realizada pelo Centro de Assessoria em Resíduos Sólidos e Educação Ambiental - Cenatec (www.cenatecbrasil.blogspot.com.br) em parceria com as Direções, professores, alunos e comunidades escolares.
    Divulgamos nossas atividades através das redes sociais como Facebook e principalmente o Linkedin (procure na lista de blogs ao lado do artigo).
    Em breve estaremos divulgando nossa programação para o primeiro semestre/2014 e buscando recursos para a programação do segundo trimestre/2014.

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