domingo, 3 de junho de 2012

Resíduos sólidos e inclusão profissional

Roger Friedrich Werner Koeppl - Cooperado - You Green.
Publicação original em http://bakuara.blogspot.com/

Um tema freqüentemente visto como problema ou como oportunidade para grandes players e negócios de cifras mirabolantes, como lixo no tocante à preocupação política e da sociedade e que ainda suscita a curiosidade de poucos. Aqui explicaremos os resíduos sólidos como veículo possível de promoção do bem-estar coletivo, da inclusão social, do equilíbrio das contas públicas, da preservação dos recursos naturais e do fomento da criatividade na sociedade.

Para começar a nossa dissertação, diferenciaremos lixo de resíduo sólido. Não tomaremos para isso nenhuma definição legal ou de dicionário, e sim o impacto das palavras, e como a mudança de um simples substantivo pode nos colocar em um diferente ponto de observação para este tema tão intrínseco aos nossos hábitos de vida. Qual é, dos termos a seguir, o que mais corretamente sugere o trabalho de um catador de materiais recicláveis: dizer que trabalha catando lixo, ou que faz triagem de resíduos sólidos? Reflita sobre a imagem que lhe passa à cabeça, de ambas as descrições. Muda sensivelmente de uma para a outra, não? Ademais, se lixo fosse o termo correto, teríamos aprovado a Política Nacional do Lixo, e não a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

O histórico do tema resíduos sólidos nos mostra como este assunto fora sempre relegado às últimas instâncias da preocupação política e pública. Dado como a escória dos hábitos humanos, a intenção sempre foi a de imitar os gregos e romanos, na época de suas grandes metrópoles. Sabiamente, para a época, eles tiveram a idéia de afastar o problema dos resíduos para longe de suas magníficas cidades. Tempos depois o homem percebeu quão distante isso se tornaria, uma vez que as cidades cresciam e cresciam. Tiveram então outra idéia genial, comparável à de uma faxineira preguiçosa de buscar a pá e que varre o pó para debaixo do tapete. Eis que inventaram a idéia de aterrar o problema. Não mais se enxergariam os excrementos dos nossos hábitos. Mas, opa. Tivemos um problema, não sabíamos que este resíduo se transformava em um inconveniente ainda pior, de nome esquisito e aparência repugnante, estamos falando do chorume. Engenheiros, arquitetos, químicos, geólogos, entre outros profissionais de renome foram motivados a pensar em soluções inovadoras e que contivessem os problemas da decomposição dos resíduos, e suas perversas conseqüências. As mais geniosas idéias corroboravam para a prática de uma invenção até hoje defendida por muitos como uma solução eficiente e necessária. São os aterros sanitários. Produzido com tecnologia de ponta, com estudos de movimento de terras, análise de lençóis freáticos, etc. etc. sendo o equivalente a cavar um buraco embaixo do seu tapete persa, e pedir à faxineira que sempre jogue a sujeira da varrição para ali, e orientá-la para colocar uns panos umedecidos entre as diversas camadas de pó, para não espalhar e gerar mau cheiro. E ainda poder dizer orgulhosamente que ao completar o espaço aberto, você poderá apreciar um maravilhoso tapete persa sem nenhum risco ambiental.

Em um estudo publicado pelo IPEA, estima-se que o Brasil enterre cerca de 10 bilhões de reais por ano de materiais possíveis de serem reciclados. E esta estimativa não considera os ganhos secundários e terciários das cadeias de reciclagem. Quem defende isso não são somente ambientalistas eco-chatos e carroceiros, o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, declarou sua posição contrária ao aterramento de resíduos na C40, evento sediado em junho de 2011 em São Paulo.

Estima-se que existam aproximadamente 800.000 catadores de materiais recicláveis no Brasil, onde somente 1.200 estão organizados sob a forma de cooperativas e/ou associações (Fonte: Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis). Estes profissionais são os únicos responsáveis por qualquer indicador positivo de reciclagem que o Brasil tenha atualmente, como é o caso do alumínio, onde protagonizamos positivamente no cenário mundial. Mas infelizmente não podemos nos orgulhar tanto destes indicadores quanto poderíamos, uma vez que a motivação para realizá-los é uma cadeia de reciclagem bem-estruturada, onde o valor do recurso natural já é há tempos mais alto que o da matéria reciclada. Portanto as preocupações não são ambientais nem sociais, o que garantiria a excelência do programa de reciclagem destes materiais, mas sim econômicas, onde estes profissionais encontraram a chance de sustentar suas famílias. Segundo a mais recente publicação da Abrelpe, o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil – 2011 foram geradas aproximadamente 62 milhões de toneladas de RSU (Resíduo Sólido Urbano) no Brasil neste período, resultado da geração de 1,04 kg por habitante por dia. São números expressivos de como o nosso boom econômico e de qualidade de vida reflete no nosso poder de consumo e conseqüentemente na geração de resíduos. Considerando, pela mesma publicação, que 32% de todo este volume é composto de matéria reciclável, temos aí a nossa oportunidade.

Muitas pessoas vêm tentando virar o jogo em prol das pessoas que hoje trabalham com materiais recicláveis. E neste período de aprendizagem encontrei um denominador comum na grande maioria das iniciativas que tratam do tema com viés social ou ambiental. A falta de profissionalismo das pessoas que hoje atuam em cooperativas, associações, nas ruas, em ONG’s, dentre outras. Não existe base acadêmica consolidada para elaboração de estatísticas e teses. Sendo a grande parte das dissertações sobre segurança do trabalho, psicologia, saúde, etc. Faltam-nos ainda teses e opiniões embasadas sobre como realizar este trabalho de maneira sustentável, em seus pilares conceituais: social, ambiental e econômico. Falta-nos pensar e agir em consonância com os princípios cooperativos, de adesão voluntária e livre, da gestão democrática, a participação econômica dos membros, autonomia e independência, educação e formação, intercooperação e interesse pela comunidade, organizados e revisados pela ACI (Aliança Cooperativa Internacional). A OIT através da recomendação nº 193 assinala “a importância das cooperativas para a criação de empregos, a mobilização de recursos e a geração de investimentos, assim como sua contribuição à economia, promovendo a mais completa participação de toda a população no desenvolvimento econômico e social”.

Acredito que o modelo de negócio já exista, faltando apenas sua consolidação. E está validado como viável por organizações de moral reconhecida e experiências isoladas. As novas metas de governo acompanham nossos objetivos, pois “país rico é país sem pobreza”.  O que falta, em minha opinião, é agir com visão de futuro, aplicando as boas práticas de empresas privadas: de eficiência, organização, gestão por resultado, nas cooperativas de triagem de resíduos. Sem nunca esquecer-nos dos seus princípios doutrinários.

Somos a voz da sociedade civil, ansiosa por mudar o status quo desta problemática angustiante. Colocamos-nos à disposição de corpo e coração, para virar de vez este jogo, e avisamos que agora a solução não é mais responsabilidade minha, ou sua, a responsabilidade é NOSSA!

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